102# desistir.

Posted: January 2, 2012 in .hoje.
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Começou o ano a tomar decisões. Pegou na caneta e começou a riscar as coisas que tinha de deixar para trás. Por vezes, é preciso tirar peso da mochila para caminhar em frente. E há coisas que custam muito. Desistir nunca foi fácil. Largar o que se constrói…

Os duendes de estatísticas do WordPress.com prepararam um relatório para o ano de 2011 deste blog:

Um comboio do metropolitano de Nova Iorque transporta 1.200 pessoas. Este blog foi visitado cerca de 5.300 vezes em 2011. Se fosse um comboio, eram precisas 4 viagens para que toda gente o visitasse. ver mais

Havia um segredo. Não muito grande. Era apenas um segredo como tantos outros. Ela também era uma miúda igual a tantas outras. Mas tinha um segredo: por mais que bebesse, não se conseguia embebedar.

Bebia. Bebia muito. A cada projeto perdido era mais uma garrafa. A cada batalha ganha era outra. Mas não conseguia.

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Ficava de olhos muito abertos. A fazer contas àquilo que existia. Abria as mãos. Via se lhe restava alguma coisa. Fechava os olhos. Chorava. E queria enebriar-se. Mas não conseguia.

Na noite em que à meia-noite mudam os algarismos do ano, ela quis tentar mais uma vez. E mais uma vez não conseguiu. Deram-lhe passas para ela pedir o que ela quisesse. Aquelas que se contam e são doze, e que depois se engolem com um punhado de sonhos. Usualmente pedimos desejos com as passas, que esquecemos dois dias depois. Ela esquecia-se sempre dos desejos, mas o que é certo, é que cada vez que, com esforço, as engolia, instintivamente, pedia sempre a mesma coisa:

esquecer a razão pela qual se queria enebriar.

 

fotografia by cat.

99# já não aguento.

Posted: December 28, 2011 in .disorder material.
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Gostava de te contar uma história. Sem era uma vez. Porque não foi só uma. Foram várias as vezes que me perdi por ti. No balancete das coisas frias e inócuas.

Destruíste-me com uma frase. É só o que tenho para te dizer.

Lembro-me de fazer tanto calor que tinha de me abanar. Lembro-me de ter comprado um leque para me refrescar, tal era a onda de vento quente. Colava-se à pele. Não saía.

Hoje? Agora? Está tanto frio. E eu tenho tanto medo. Será que um dia voltarei a amar?

Dizias-me sempre que gostavas de tulipas cor-de-rosa. Dizias-me sempre que os teus sonhos eram da cor de burro quando foge, e que tinham o sabor a amêndoa amarga, com café e com gelo. Aquela especialidade italiana que sempre, e sempre achaste intragável. Sobre mim, dizias que eu sabia a medo, e que tinha gosto a pouco. E essa era a tua razão para me agarrares atrás das coisas, encostados às paredes. No segredo de ninguém ver.

Hoje vou contar-te um segredo. Hoje que te foste da minha vida. Sei que já foste há muito tempo. Mas sinto-o hoje como no dia em que te despediste de mim, sem dizer sequer um até já. Nunca gostaste de despedidas. Dizias que eu chorava e que os beijos com sabor a salgado estragavam-te a maquilhagem.

O meu pai ensinou-me que os homens não choram. O meu pai ensinou-me que os homens não amam. Gostam e habituam-se. Talvez me tenha habituado a ti. Ou talvez te tenha amado. Daquela forma de não te ter amado nunca. De não te ter conhecido nunca.

Hoje vou contar-te um segredo. Escondido entre as minhas contas por pagar. Sorrisos para gostar. Anedotas para rir. Escondido entre os papéis do desgosto e na lembrança das luzes.

Hoje vou dizer-te que te plantei um campo de girassóis. No terreno que a minha avó nunca conseguiu vender. «Por causa da crise», dizia ela, em 1989.

Hoje vou dizer-te que os girassóis cresceram. E que dão coisas de girassol. Daquelas como o óleo de girassol. Sementes e biodiesel.

Hoje vou dizer-te que vou cortar os girassóis, com o meu pai.

É a minha maneira de te chorar.

.fotografia by João Henriques.

Eu? Tu? Aquele pássaro que teima em tentar subir para cima do parapeito? A tartaruga que quer sair do aquário, para se esconder no quente daquilo a que chamam «parte de trás do frigorífico»? Quem? Diz-me a sério: quem manda aqui? Quem manda naquilo que sinto? Ou naquilo que não sinto?

Sei quem manda na roupa que visto e no dinheiro que ganho (não, não sou eu). Sei quem manda o sol nascer e a chuva cair. Sei quem pinta as estrelas e empurra as ondas. Mas, porra, quem manda aqui? É que às vezes fico confusa. É que aquilo que sinto, não tem nada a ver com o que quero. E aquilo que quero, são tantas as vezes que «não me apetece.» Enfim.

Sabes o que queria? Queria gostar de ti. Queria que gostasses de mim. Queria que gostássemos juntos. Mas isso é difícil, não é? Que merda. Que raio. Quem é que manda aqui, que eu quero fazer uma reclamação? Quero o livro amarelo, sim. Aquele que diz «livro das reclamações» a letras desenhadas a verde.

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Quero escrever «querido livro amarelo, gostaria de gostar de gostar. Gostaria de ter a capacidade de gostar, e quem sabe mais um bocadinho. Pode ser do tamanho do danoninho. Que cresce um bocadinho assim. Portanto quero apresentar o meu desagrado, por não haver alma no mundo que me consiga informar, quem é que toma conta desta situação».

Sabes, gostava de gostar de ti, um bocadinho assim. E gostava que gostasses de mim, um bocadinho assado. Mas… porra. Quem é que manda aqui? Hein?

(e com isto, esqueço-me da crise)

.fotografia by Cat.

… mais me apercebo que nunca gostei de ti. não preciso de ti para nada.

Reconheces aqueles dias em que deverias sentir sentimentos e acabas por não experimentar sensação alguma? E, aqueles em que te deverias lembrar de caras e simplesmente nada te passa pela cabeça, ou pela consciência, ou inconsciência (que é o que tenho para dar e vender)? Nem da face, nem da voz, nem da situação? Nem do tempo escondido entrelinhas? Nem de absolutamente nada.

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Ou mesmo das situações que te deveriam preocupar? Não sentir nada. Absolutamente nada. Um nada ligado ao vazio daquilo que se sente entre os pulmões, ou onde quer que sintas as coisas (que as pessoas têm sítios diferentes para sentir).

Acordo todos os dias oca. Não há cá nada dentro. Não há amor. Não há paixão. Não há compreensão. Não há desespero. Não há vontade. Há apenas uma coisa. Em quantidades ao nível da tonelada: um grande e gigante NADA!

Não me sufoca. Não me oprime. Não me deprime e muito menos me faz chorar. Não me causa ansiedade. Não me traz qualquer felicidade. Sabes porquê? Porque não é nada. Só e apenas. Nada. Com todas as duas consoantes e uma vogal repetida.

Como é possível estar viva e não sentir nada? Sim, sentir sentimentos, como as pessoas normais. Que merda ando eu a fazer?

.fotografia by Cat.

Pois. A minha viagem terminou e nunca cheguei a colocar aqui os meus últimos dois dias italianos. O tempo tem sido escasso, desde que cheguei. A vida tem passado a correr, o trabalho tem aumentado a olhos vistos e, basicamente, tenho ficado contente por ter tempo para tomar banho.

O sexto dia que aqui falta já se me perdeu um pouco na memória. Passou-se com um pequeno aperto no coração. A acordar e a fazer a mala. A comer pela última vez o pequeno-almoço. A deixar a mala na recepção para poder despedir-me das pessoas na universidade e ir buscar o comprovativo da minha mobilidade ao gabinete de cooperação internacional. Algum tempo lá à espera. Algumas confusões sobre o bendito papel. Caminhada até à reitoria. Despedidas. Engole os sentimentos, Cátia.

Saí às duas. A Loredana iria levar-me ao comboio. Fiquei à espera à porta do hotel e ela apanhou-me. Um pouco em cima da hora. Comprar bilhete. A correr. Subi para o comboio. Nem me despedi em condições. Isso doeu-me. Mas pensei que talvez fosse um sinal de que nos veríamos novamente.

Admito que chorei nas sete horas de viagem que me separavam de Lecce a Roma. Admito que dormi. Admito que falei mais uma meia hora ao telefone com a Tânia. Como eu precisei de alguém com quem falar naqueles dias. Como eu precisei de alguém.

Chegada ao Roma Termini, comprei um bilhete para a madrugada seguinte nas máquinas. E pus-me a caminho à procura do hotel. Depois de umas indicações, mais ou menos compreensíveis, pus-me a caminho. E andei. Andei. Andei. A mala quase a partir-se por completo. Estava tão pesada. Andei. Andei. Como eu precisava de alguém. Andei. Andei. Ufa. Encontrei o hotel. Depois de carregar a mala pelas escadas, descubro que não é aquele. «é o outro, uns números à frente». Andei. Andei. Cheguei.

Que pavor! 85 Euros por um quarto que até tenho medo de entrar nele. Parecia saído de um filme de terror. A qualquer instante a Anaconda saltaria da sanita e o Abominável Homem das Neves acordaria do seu sono debaixo da cama.

Saí. À procura de um sítio para jantar. Deambulei um pouco pelas ruas. Já eram onze e pouco da noite. Quase meia-noite. Mas os restaurantes ainda estavam abertos. Isso e a vida da cidade. Era tanta que parecia uma da tarde. Encontrei um pequeno restaurante, junto a um viaduto romano, antigo. Monumento, mesmo. Não resisti a provar o verdadeiro risotto de cogumelos. O verdadeiro tiramissú. Voltei para casa. Esquecida da garrafa de água que tinha comprado. Cheguei ao hotel. Tentei adormecer as três horas que me separavam do retorno. Pouco consegui. Tudo naquele quarto era assustador.

Levantei-me eram cerca de 5 da manhã italianas, que são quatro portuguesas. Pedi um taxi. Andei às voltas. Encontrei o comboio. Entrei a correr. Pensava que me atrasaria. Mas não. Ainda estive uma hora e um quarto lá dentro, à espera que o comboio começasse a andar e que viesse o senhor pica dizer-me que eu tinha de pagar uma multa de 50 euros. Primeiro porque o bilhete não era para aquele dia. Depois de argumentar que era, afinal era porque o mesmo não tinha sido obliterado. Ora, tirem-me deste filme. «Senhor, não tenho 50 euros, só tenho cartão». «Dê-me o passaporte, se quando sair não me pagar, recebe 120 euros de multa no seu país». Cheguei. Olhei em volta, não vi o senhor. Pois bem. Fui para o meu país. Nunca iria encontrar-me. Ah ah ah (riso maquiavélico).

Quando pisei novamente solo português, tudo estava mais baixo. As pessoas falavam mais baixo e sem ondulação na voz. Sem sorriso a conversar. Sem nada. E eu? Pois, a minha mala partiu o resto e eu tive de reclamar.

Hoje, sinto cada vez mais que encontrei um dos meus sítios para ficar. Assentar e morar durante uns tempos. Até que me reconheçam na mesa do café, e já saibam que é para me trazer o capuccino. Nessa altura, será a hora para voltar a ir embora.

Quero muito ir embora. Quem me dera que o dia fosse hoje.

.fotografia by Cat – voglio andare via – Lecce.